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Lições de um carvalho

Lições de um carvalho

Lições de um carvalho

Nos tempos que decorrem, a seca severa pela qual Portugal tem passado tem colocado em check o acesso a um bem essencial, a água. Tal cenário pode traduzir-se na implementação de modelos de racionamento de água às populações ou às produções agrícolas. Porém, enquanto continuamos a debater soluções em torno dessa problemática, a vegetação tem sofrido igualmente com o impacto da falta de chuva, nomeadamente os carvalhos (quercus da família das fagaceae). E, agora, questionas? «O que é que isso tem a ver com energia?». Eu respondo: «tudo». Com efeito, os carvalhos dão-nos importantes lições sobre eficiência energética.

Lições de um carvalho. Várias árvores sem folhagem.

As condições climatéricas ásperas e o calor extremo têm levado a que as povoações de carvalho (não todas) fossem perdendo a folhagem, dando ideia de um outono precoce para estes indivíduos. Aliás, esse foi um comportamento que observei e que me surpreendeu ao ver que afetava os carvalhos de forma particularmente séria. Não obstante, a libertação dessa folhagem permite ao carvalho poupar os seus recursos internos, uma vez que o transporte de água até às folhas exige energia. Dessa forma, o carvalho entra em modo de «hibernação», retém energia suficiente até às primeiras chuvas e com fortes probabilidades de sobreviver. O mais fascinante é, no entanto, a forma como as povoações de carvalhos estabelecem a comunicação entre indivíduos e alertam para determinados riscos, nomeadamente a falta de água. Ou seja, aos primeiros sinais de seca, os carvalhos comunicam entre si e geram comportamentos semelhantes. A atitude do carvalho demonstra uma profunda solidariedade e que devia sensibilizar qualquer ser humano, seja através de lições de espírito comunitário e de solidariedade ou como poupar energia.

A água e o acesso à energia

Continuando com o tema em torno da falta de água, as limitações do acesso à mesma podem condicionar a produção de energia e, em parte, é a própria transição energética que pode estar a colocar essa questão em causa. Uma das principais fontes geradoras de energia são as barragens através da produção de energia hidroelétrica. Para todos os efeitos, trata-se de uma energia limpa, entre aspas. Toda e qualquer forma de produção de energia tem impacto, uns mais leves e outros mais graves, claro. A título de exemplo, a opção por barragens traz complicações para a fauna e flora aquática, tanto a montante como a jusante. Interfere no processo migratório dos peixes e causa reações químicas e alterações físicas na paisagem, em especial, a jusante. Felizmente existem movimentos que propõem soluções de menor impacto. Mas, voltemos à questão energética. 

Se já tiveste a curiosidade em olhar para a fatura de eletricidade, na última página, há um gráfico que demonstra a origem da energia que abastece a tua casa. Algumas tarifas, nomeadamente, as «aparentemente mais baratas» são servidas de diversas proveniências, desde produção elétrica a partir de energia fóssil, renováveis, de carvão ou gás natural. A maior parte destas fontes de energia são importadas através de gasodutos com centenas ou milhares de quilómetros ou por petroleiros transoceânicos. Por outro lado, as energias renováveis são energias de produção local, isto é, se o país possuir infraestruturas para a sua produção. Portanto, trata-se de uma mais-valia para a autossustentabilidade das próprias comunidades e regiões.

Gráficos de desempenho energético

A grande fasquia concentra-se na energia hidroelétrica, o que demonstra a forma como tem sido priorizada, mas será que pode ser a única solução?

Eólicas…

As eólicas têm preenchido a paisagem em pontos de altitude mais elevadas. Não obstante, existem algumas problemáticas que devem ser tidas em conta, sobretudo, por estar dependente de fenómenos climatéricos (vento) e não é matemático que onde sopre mais hoje, venha soprar mais amanhã. Além disso, o local de «plantação» de eólicas não é tido em conta, num ponto de vista ecológico. Aliás, estas ocuparam cumeadas sem avaliação e estudos de impacto ambiental. Não sou contra as eólicas, mas simplesmente não se pode vulgarizar e assumir que qualquer ponto alto é o local para instalá-las. Alguns problemas que não foram previstos inicialmente estão a ser esbatidos, nomeadamente, com a reciclagem das hélices (não consegui encontrar a peça da Euronews). No entanto, são equipamentos que, até há pouco tempo não eram capazes de armazenar energia, ou seja, geravam energia espontânea e para ser consumida no momento.

…e painéis solares

Não obstante, a grande aposta de energia deveria ser a solar. Portugal é o país da Europa com uma média de horas de sol superior a 2500 horas. Haverá regiões no território mais soalheiros que outros, porém, o país goza de condições privilegiadas para adotar o recurso ao solar (e às marés) de forma sustentável.

Há várias razões para apostar em tal, infelizmente a forma como está a ser gerido o acesso a estas não é o ideal. Primeiro, empresários com terrenos recorreram aos subsídios para usar poderem «plantar» painéis solares e «desplantar» sobreiros, azinheiras, carvalhos e outras espécies autóctones. Segundo, o proveito económico e lobbies em torno das energias verdes estão a suplantar a ideia de «amigas do ambiente» quando a gestão promove a destruição de habitats. E, Terceiro, o recurso a esta energia tinha tudo para ser democratizada, porém, não foi isso que ocorreu.

Uma proposta de modelo à energia solar

Têm sido criados parques de fotovoltaicos, como o «parque flutuante» no Alqueva, o maior da Europa. O projeto não é mau, mas continua a assumir o modelo de centralização de energia. Agora, imagina se houvesse facilidade para cada família, ou condomínio ter acesso a estes meios. Ou seja, em vez de os parques de painéis solares ocuparem espaços onde há potencial para a biodiversidade e evitar impactos ambientais, utilizar as infraestruturas já existentes…os telhados das casas. Portanto, o que defendo é um modelo descentralizado da gestão de energia, com base no modelo das criptomoedas, em que cada um tem capacidade de «minerar energia». A energia gerada por painéis, quando não consumida, pode ser vendida para a rede pública. Tal, permitirá o retorno do investimento a curto-médio prazo. É óbvio que nem todos têm casa própria, mas esta possibilidade poderia permitir baixar rendas ou diminuir o esforço do orçamento familiar. Pode parecer uma ideia absurda, mas ela já foi aplicada (não necessariamente com recurso ao solar, mas é onde temos maior potencial) e resultou. E, claro, sucedeu na Dinamarca (com patrocínio do Estado). Haveria custos de manutenção, sem dúvida, contudo, com um orçamento familiar mais musculado poderia colmatar essas despesas. Atenção: isto não é uma carta aberta para gastar indiscriminadamente energia. As vantagens vêm do uso consciente que fazemos da própria energia.

Pensar em soluções biofílicas

Voltando ao princípio, muito poderíamos aprender com o carvalho. Ele dá-nos uma lição preciosa que em tempos de crise temos de eliminar as «pontas soltas» para sobrevivermos. A guerra no leste europeu veio alertar para esse fator e para a dependência energética dos estados. Porém, estas formas de energia serão, eventualmente, finitas. As soluções, mesmo que ainda não sejam as ideais, têm de passar pelas energias limpas e verdes e continuarmos a questionar o impacto destas no ambiente, pois desta forma, podemos almejar outras fontes e formas de energia biofílicas. Cabe a cada um de nós ser proativo na gestão eficiente de energia em casa.

Uma última sugestão, se tiveres ar condicionado em casa ou no escritório, coloca a temperatura a 27oC. Dessa forma é exercida a climatização do espaço, mas sem um gasto de energia excessivo. Além disso, não sofres com oscilações térmicas. Ou, anda toda a gente a queixar-se do preço do combustível…larga um pouco o acelerador e, já agora, um pouco o carro também.

Entretanto, deixo um vídeo sugestivo do que se vai fazendo como soluções biofílicas.

Até à próxima!

Autor do texto:

Tiago de Oliveira Alves

CEO Malcata Eco Experience

Historiador | SUP Expert | Wild Blue professional

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